Era uma vez em Belo Horizonte

Crônica sobre a história do futebol na capital mineira

28 e Julho de 2013

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Por Otávio Ogando

Era uma vez, uma mãe bem gorda e carinhosa. Ela tinha dois filhos e os tratava com o mesmo amor. Eles tinham nomes bem comuns e por isso todos os chamavam pelos apelidos. O mais velho era o Bicudo. Um garoto forte, sério e organizado.  Andava sempre alinhado e não se misturava com ninguém.  Cenoura era o filho mais novo. Mais descolado, saía com a galera, bebia cachaça e sonhava ser músico. A família morava em uma fazenda e tinha muito dinheiro.  Os garotos passavam o dia inteiro jogando bolinha de gude. O mais novo era bem mais habilidoso e o mais velho era muito forte e vingador.

Tudo corria bem até que o mais novo ganhou dez vezes seguidas do mais velho! Nesse dia foi uma briga feia! Eles brigaram tanto que a mãe teve que construir uma casa para cada um. Cenoura ganhou uma casa bonita e verde. Que ele mesmo ajudou a construir. Estava adorando essa nova independência. Bicudo ficou enciumado e começou a reclamar. Chorou tanto que a mãe teve que construir uma casa ainda maior, porque a criança simplesmente não parava de chorar.

– Maior!, dizia. Maior!

A Mãe era rica, mas não tinha dinheiro suficiente para o tamanho do capricho do filho. Não restava saída a não ser pedir ajuda ao Pai das crianças para construir a nova casa. O Pai era um senhor bom, muito rico, mas um pouco mulherengo. Em uma dessas escapadas, engravidou uma bela jovem italiana, filha de um pequeno padeiro da cidade. A esse novo filho, o chamavam de Parafuzo, porque era miúdo como o macarrão e adorava pregar peças.

Ao saber da traição, a Mãe Gorda mandou colocar fogo na padaria e matar toda a sua família. O incêndio queimou tudo, mas como último suspiro, a jovem deu a vida para salvar o filho.

O Pai, arrependido da traição, concordou em construir uma casa bem grande, do tamanho do Maracanã. Mas tinha uma pequena condição. A Mãe Gorda teria que aceitar que o filho de fora do casamento também morasse nessa nova Casa Grande.  E tinha que cuidar do pequeno Parafuzo como se fosse seu filho. Ela pensou: “Essa casa é bem grande, cabem os dois. E esse moleque é tão pobrezinho e franzino que rapidinho morre. Dá até dó, coitado! Hahahahaha”.

O mais velho não gostou nada de dividir a nova Casa Grande com aquele garoto estranho, mas foi convencido pela mãe de que seria temporário. Em breve a casa seria só dele.

E assim foi. A Mãe Gorda olhava para os três com muito amor. E se sentia bem consigo mesma: “Como sou acolhedora e hospitaleira”!

O tempo foi passando e aquele menino franzino foi crescendo e ficando um pouco mais forte. E timidamente admirava os novos irmãos jogarem bolinha de gude. Ficava visivelmente encantado com a habilidade do mais novo, o Cenoura. Lá do seu canto, afastado dos outros, Parafuzo inventava partidas fictícias contra oponentes imaginários. E assim, todas as tardes brincava sozinho e se divertia um montão. Às vezes, o mais novo lhe ensinava algum truque, mas a Mãe Gorda sempre interrompia:

– Já disse que não quero ver você com esse bastardo!

O orgulho da Mãe Gorda era ver os filhos nos campeonatos de bola de gude. E resolveu inscrever os três em um torneio nacional. Sua intenção era humilhar aquele moleque franzino na frente de todos e provar que seus filhos legítimos eram melhores que o filho de uma estrangeira qualquer.
Mas não foi bem isso o que aconteceu.
Bicudo, o filho mais velho, foi logo eliminado na primeira fase.
Cenoura, conseguiu ir mais longe, mas a boemia sempre parecia um atrativo melhor.
Para a surpresa de todos, o moleque franzino foi avançando, avançando até chegar a final.
A Mãe Gorda dizia: “Que sortudo esse menino. Uma pena que não vai ser campeão. Mas tem muita sorte. Sorte pura. Hahahaha”.

E de fato a disputa final foi bastante complicada. Seu concorrente era um negrinho chamado Gasolina, um primo do interior que foi fazer a vida no litoral de São Paulo. Diziam que ele era o Melhor do Mundo.

Todavia, com criatividade e habilidade fora do comum, o moleque franzino conseguiu ganhar a primeira partida dentro de casa. E também ganhou de virada a partida fora, surpreendendo a todos no país! Parafuzo era o Campeão Nacional de bolinha de gude!

O pai estava vaidoso! A Mãe gorda fingia orgulho, mas no fundo ela se arrependia de não ter matado aquela criança. Ela se sentia ferida e humilhada. Precisava mostrar pra todo mundo que o filho dela era muito melhor. Mas Bicudo por mais que tentasse não levava o menor jeito para bola de gude.
Então, a Mãe ligou para a Avó das crianças, uma senhora muito poderosa, e exigiu que seu primogênito entrasse para seleção Brasileira, que ia disputar o Mundial.  E fez questão que desconvocassem o moleque franzino, porque ali não era o lugar dele, dizia. Ela ia provar para o mundo o valor do seu filhinho, custe o que custar.

A Avó, uma velha ainda mais gorda e extremamente autoritária ligou para o treinador e forçou a entrada do Bicudo na seleção. Ninguém no país gostou. Muito menos na seleção.
O técnico disse: “Cuide de seu ministério, que eu cuido da escalação do meu time”.
A Avó, sem titubear, mandou cortar sua cabeça e botou outro bem mais obediente em seu lugar.

Dito e feito. Bicudo foi convocado e viu do banco de reservas o Brasil ser Tricampeão Mundial…de bolinhas de gude.

Mas a Mãe Gorda ainda não estava satisfeita. Tinha que fazer de tudo para que o seu filho pudesse ganhar um título e enfim ser campeão brasileiro. Estava disposta a qualquer coisa, inclusive a se misturar com a “gentalha”. Então foi procurar as classes mais pobres. Se entregou às massas e usou seu poder para fazer as pessoas acreditarem nisso.

E sabe de uma coisa? Essa mistura fez muito bem pro Bicudo… Ele ficou mais bem humorado, mais descontraído e até um pouco mais habilidoso. Mas, a arrogância e o sentimento de vingança nunca o abandonaram. E o pior. Para atrair os mais humildes que estavam encantados com o carisma de Parafuzo, a Mãe gorda inventou um monte de mentiras sobre o moleque franzino. Mentiras que são contadas até hoje. Inventou que ele era esnobe, muito moderno e até que ele não era brasileiro.

Uns acreditaram. Outros não.

O tempo passou e Bicudo foi melhorando. O contato com o povo surtiu efeito. E, anos depois, com a imprescindível ajuda da massa, o filho mais velho conseguiu finalmente ser Campeão Brasileiro de bolinha de gude!

A Mãe gorda ficou feliz. Felicíssima! Não se aguentava de contentamento. Ficou tão feliz que decidiu que era hora de expulsar o filho franzino da Casa Grande. Teve a brilhante ideia de mandá-lo para um intercâmbio bem longe. Mandou o Parafuzo pra bem depois da cordilheira dos Andes, num lugar frio e isolado chamado Santiago do Chile.

E lá foi o menino franzino e assustado.  O início foi difícil, outro idioma, outra cultura. Mas o garoto já estava acostumado a ser um estranho no ninho. E com seu carisma nato, sua habilidade fora do comum e uma dose de molecagem, Parafuzo saiu de Santiago com o título de Campeão da América!

Foi sua Libertação! Voltou então para o Brasil disposto a tomar conta da Casa Grande que seu pai lhe deu! Afinal, também era herdeiro legítimo daquele lugar. Resolveu peitar a Mãe Gorda e má! E foi uma briga feroz. A Mãe não estava disposta a perder de novo. Vendeu tudo o que tinha para investir na carreira dos filhos. E para ser ainda mais eficaz, ela decidiu escolher apenas um dos dois. Optou pelo que chorou mais alto. Escolheu Bicudo e renegou Cenoura.

E assim, viu o filho mais velho ficar com o Rei na barriga. Ele passou a ganhar todas as disputas domésticas. Bicudo foi crescendo e, quanto mais habilidade adquiria, mais arrogante ficava.  Mas, não importava o quanto jogava bem, ele nunca conseguia ser campeão de um título importante. Nunca. Quando chegava a alguma final, sempre esbarrava em Zé Urubu, um outro moleque super mimado filho de uma Mãe ainda mais gorda. Uma Mãe Carioca que também usou a tática de se aproximar das massas. E o que é pior, usava a tática de se aproximar da arbitragem também.

Bicudo seguia tentando em vão. Cenoura se entregou à boêmia, recolheu-se à sua pequena casa, mas sem perder a alegria jamais.  Já Parafuzo sofreu muito com as mentiras e com o isolamento. Passou anos sem conseguir um título. Parecia que seria o fim.  Finalmente o filho mais velho e mimado dominaria as ações.
Mas algo faltava àquele moleque arrogante e antipático.  Algo inexplicável. Algo que separa os bons dos maus.
Ele não conseguia ser campeão de novo.
A mãe gorda chorava: “É o azar, só pode ser azar. Meu filho é o melhor do mundo”!

O tempo passou. E o filho mais velho seguia recebendo toda a atenção, mas não conseguia ser campeão.

Então, Parafuzo decidiu que era hora de buscar outras terras e partir para onde ele era querido. Pôs o pé na estrada e foi fazer sucesso mundo afora. E assim colecionou títulos internacionais. Todo ano era um. Supercopa. Recopa. Libertadores. O moleque franzino foi crescendo,  crescendo e se tornando um gigante. Era o sucesso entre todos, dentro e fora da cidade! Voltou e começou a mandar na Casa Grande de novo. Sempre subestimado e comendo pelas beiradas, começou a mandar no Brasil também. Morta de inveja, quanto mais o menino ganhava, mais mentiras a Mãe Gorda contava. Só que agora as mentiras não faziam efeito. O moleque era astuto, combativo e jamais vencido.
Eis que, em um belo ano, Parafuzo foi além. Conquistou a famosa tríplice coroa da bolinha de gude. Feito inédito no país. Em um só ano, ele conquistou tudo que poderia ter conquistado. Foi a maior façanha de um jogador de gude de todos os tempos.
Já não havia como comparar os dois filhos rivais. As disputas ficaram cada vez mais desiguais. Era 5×0, 5×0 de novo, 6×1. O menino franzino se tornou o verdadeiro dono da Casa Grande!

A Mãe Gorda ficou louca! Seu filho era chacota nacional. Ela tinha que fazer algo e rápido! Agora era guerra! Ela começou a se prostituir. Deu pra banqueiro. Deu pra político. Roubou até a casa do filho mais novo e deu para o mais velho. Foi uma vergonha. Valia tudo para ver o filho campeão.

Tanto fez, tanto fez, que finalmente o Bicudo conquistou a tão sonhada taça de campeão da América. Hoje o Brasil inteiro acha o filho dela um amor e ela morre de orgulho.

Fim.

Por Otávio Ogando

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