Pessoas não cabem no orçamento

Por Benno Warken Alves, chapecoense, nascido em Chapecó, SC

Todos estão arrasados. O futebol não é apenas um jogo. Por um dia, por causa de um desastre, redescobrimos ser um país, uma humanidade, talvez. Sofremos, choramos, mas fomos capazes de inúmeros gestos de grandeza; entre os mais comoventes, o do Atlético Nacional, disposto a abrir mão do título em homenagem à Chapecoense. Muito se comentou.

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Ao longo do dia e da noite, em Brasília, austericídio, manobras, barricadas de fogo e de gás. Uma mensagem: as pessoas não cabem no orçamento. Dois consensos em colisão. Como iguais, choramos mais de setenta trágicas mortes. Ao mesmo tempo, condenamo-nos à catástrofe por não acreditarmos de fato no ideal da igualdade. Abandonamos um projeto de nação e nos desagregamos, cada um à própria sorte. Os representantes de nossa comunidade política escolhem o sacrifício, “cortar na carne”, do mesmo modo como foram sacrificadas aquelas mais de setenta vidas. Cortes de gastos, decisões equivocadas.

Evidências indicam que o desastre não foi apenas um acidente. As circunstâncias que o provocaram foram construídas por ações. A mais determinante delas, optar por um avião inadequado para a rota; ou uma rota inadequada para o avião. Faltou combustível, um extra necessário, mas que provavelmente não caberia naquele tanque. Como não desabar junto – ao ver, em imagem aérea, a asa de um lado da montanha, o resto do outro? Sonhos e possibilidades esfacelados contra as árvores. E se tivessem conseguido superar aquela montanha? O terreno adiante parece um pouco mais plano. Contra o bom senso e as determinações de segurança, dezenas de vidas foram colocadas à mercê do mínimo imprevisto. Dizem que um avião não cai por uma causa apenas. Mas arriscar desse modo é, no mínimo, eliminar de partida uma das garantias de segurança. Isso é o que dizem. Não entendo de aviões, mas acredito.

Nossas ações são como lances num enorme jogo. Podemos apenas tentar prever como todos os outros jogadores irão se comportar. Ponderamos, planejamos e agimos. Todos os outros também. As ações se combinam, empurram os acontecimentos em determinada direção. Surgem padrões imprevistos, decorrentes dessa complexa combinação, os quais voltam a determinar os próximos lances. São as regras que seguimos. Alguma percepção a respeito daqueles padrões é o que nos permite tentar prever os resultados das próximas ações; reconsiderar as passadas. Uns têm mais poder, outros menos, há grupos que agem de modo coordenado, mas ninguém consegue controlar com segurança o curso da história. A vida é surpreendente.

É necessário chorar, lamentar, confortar, mas também tentar compreender. Não podemos ser escravos de nossas criações. Queremos sacrificar vidas e possibilidades humanas aos pés de uma lógica que nós mesmos produzimos? E se por trás das promessas de ganhos imediatos descobríssemos custos insuportáveis? Sempre é tarde demais.

Do ponto de vista dos agentes responsáveis, as ações podem ser racionais. A trinca Geddel, Temer e São Calero ofereceu uma amostra do tipo de interesses que motivam as decisões deste governo. Quem sabe quais outros podem estar por trás dos 61 votos favoráveis à PEC 55 no Senado? Cortar gastos em áreas fundamentais – sobretudo quando se torra em supérfluos – não é realizar um ajuste necessário. É inverter prioridades. É arquitetar uma catástrofe.

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Por outro lado, do ponto de vista de uma comunidade política – uma nação que, por razões tortuosas, fez-se representar por um consórcio golpista –, esse rumo é irracional. Dirigimo-nos a nossa própria Medellín. Desastres como o argentino, o grego e o português mostram que a PEC 241/55 é um veículo também inadequado para alcançar o que queremos: desenvolvimento, riqueza, justiça. A indecência do golpe guia-nos de modo imprudente. Mas as barricadas de fogo numa interminável Esplanada sugerem um “e se?” político. Se pudermos evitar os equívocos que juram ser inevitáveis, talvez um outro mundo ainda seja possível. Uma realidade alternativa, surgida da encruzilhada de nossas ações, na qual todos estejamos vivos.

Por muito tempo, os processos sociais têm corrido cegamente, sem controle – como o curso de um jogo. A tarefa da pesquisa sociológica é fazer com que esses processos cegos, descontrolados, tornem-se mais acessíveis ao entendimento humano, explicando-os. De modo que as pessoas possam orientar-se em meio à intrincada trama social – a qual, mesmo que criada por suas próprias necessidades e ações, não é compreendida imediatamente – podendo, assim, controlá-la melhor.

(Norbert Elias, What is Sociology)